NR-1, saúde mental e saúde financeira: o elo que faltava no bem-estar corporativo

Entenda o que a NR-1 pede, o que ela não pede e por que a saúde financeira do colaborador se tornou parte inseparável dessa conversa.

MERCADO FINANCEIRO

Elisa Manzato - Lumiius Co-founder

10/7/202610 min read

Desde 26 de maio de 2026, a saúde mental entrou oficialmente na gestão de riscos das empresas brasileiras. As multas estão suspensas pelo STF, mas a obrigação de gerir esses riscos continua valendo. Entenda o que a NR-1 pede, o que ela não pede e por que a saúde financeira do colaborador se tornou parte inseparável dessa conversa.

Em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, segundo o Ministério da Previdência Social. No mesmo período, o Brasil chegou a mais de 81 milhões de pessoas inadimplentes, recorde da série histórica da Serasa.

São dois números de mundos diferentes, um da saúde e outro da economia. Mas eles se encontram todos os dias no mesmo lugar: na cabeça do colaborador, durante a jornada de trabalho.

Este artigo foi escrito para quem precisa conversar sobre esse encontro com responsabilidade: profissionais de RH, médicos do trabalho, psicólogos, equipes de SST, corretoras e consultorias de benefícios. A proposta é separar com clareza o que é obrigação legal, o que é evidência científica e o que é boa prática de cuidado.

O que mudou na NR-1

A Norma Regulamentadora nº 1 é a base de toda a segurança e saúde no trabalho no Brasil. Seu capítulo 1.5 define o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), materializado no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

A Portaria MTE nº 1.419/2024 incluiu expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho nesse gerenciamento. A vigência foi adiada uma vez pela Portaria MTE nº 765/2025 e começou em 26 de maio de 2026, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego.

Na prática, riscos como sobrecarga, pressão por prazos, conflitos, assédio e falta de apoio passam a ser tratados com o mesmo rigor que um risco químico ou de queda. Eles seguem o ciclo do GRO:

  1. Identificar e avaliar: perigos e riscos, a partir da Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) prevista na NR-17 e, quando necessário, da Análise Ergonômica do Trabalho (AET).

  2. Prevenir e controlar: medidas priorizadas em um plano de ação.

  3. Acompanhar e aferir: cronograma, responsáveis e verificação de resultados.

  4. Atualizar e registrar: inventário de riscos, plano de ação e evidências do processo, com revisão no mínimo a cada dois anos.

O MTE publicou três materiais de referência: o Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais (2025), o Manual do GRO/PGR (2026) e o documento Perguntas e Respostas sobre o Capítulo 1.5 (maio de 2026).

Atenção ao calendário: as multas estão suspensas, a obrigação não. Na entrada em vigor, o MTE adotou o critério de dupla visita, com fiscalização orientativa nos primeiros 90 dias. Em 25 de junho de 2026, o ministro André Mendonça, do STF, suspendeu por 90 dias as multas e demais sanções ligadas aos riscos psicossociais, na ADPF 1316, movida pela Confenen; a decisão foi referendada pelo Plenário em 18 de agosto (Metrópoles).

Em setembro de 2026, a pedido da CNSaúde e da CNC, a suspensão foi prorrogada por mais 90 dias para dar continuidade às negociações de conciliação no STF, iniciadas em 14 de setembro (Contábeis).

A prorrogação não suspende a NR-1. As empresas continuam obrigadas a identificar, avaliar e prevenir os riscos psicossociais; o que fica suspenso são apenas as multas e sanções ligadas aos dispositivos questionados (Martinelli Advogados). Como o tema segue em negociação, vale acompanhar as próximas decisões do STF e do MTE.

Por que a norma chegou agora: os números da saúde mental no trabalho

O Brasil vive o segundo ano seguido de recorde em afastamentos por saúde mental. Os 546.254 benefícios concedidos em 2025 representam alta de 15,7% sobre os 472,3 mil de 2024, segundo dados da Previdência publicados pelo Correio da Manhã.

Indicador (INSS, 2025) Número

Benefícios por transtornos mentais e comportamentais 546.254

Transtornos ansiosos (CID F41) 166.489

Episódios depressivos (CID F32) 126.608

Reações ao estresse grave e transtornos de adaptação 23.773

Participação de mulheres nos afastamentos 63,46%

Fonte: Ministério da Previdência Social, via Diário do Grande ABC.

O crescimento não é pontual. Levantamento do portal VIVA com dados abertos do INSS mostra alta de 159% nas concessões por transtornos mentais entre 2019 e 2025. Em 2025, essas concessões chegaram a 9,4% de todos os benefícios por incapacidade temporária.

E esses números mostram só a ponta do problema. Eles contam apenas afastamentos acima de 15 dias; ficam de fora as faltas curtas, pagas pelo empregador, e o presenteísmo, quando a pessoa está no trabalho mas sem condições de render.

No cenário global, a OMS e a OIT estimam que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos todos os anos por depressão e ansiedade, com custo de quase US$ 1 trilhão para a economia.

Saúde financeira: o elo entre a vida pessoal e a jornada de trabalho

O dinheiro é a maior fonte de preocupação dos brasileiros. Na 5ª edição do Raio-X da Saúde Financeira, da fintech Onze com a Icatu Seguros, ele lidera pelo quinto ano seguido, citado por 42% dos entrevistados, à frente de saúde, família e violência (Times Brasil/CNBC).

O contexto ajuda a explicar. O Brasil chegou a 82,8 milhões de inadimplentes em março de 2026, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa. Em dez anos, o número cresceu 38%, e cerca de 34 milhões de pessoas seguem negativadas desde 2016 (Brasil 61).

Como a dívida vira sofrimento psíquico

Pesquisas de grandes instituições do setor financeiro convergem no mesmo ponto: a pressão financeira tem efeito direto sobre sono, ansiedade e humor.

  • 84% dos brasileiros já tiveram a saúde mental afetada por problemas financeiros, segundo Serasa e Opinion Box.

  • 5 em cada 10 brasileiros que passaram por problemas de saúde mental também enfrentaram dificuldades financeiras; 73% não buscam ajuda por acreditar que resolvem sozinhos (Serasa Comportamento, via Medicina S/A).

  • 47% da população vive alto nível de estresse financeiro e 37% perdem o sono por causa das finanças, segundo Anbima e Datafolha.

Para psicólogos e médicos, o mecanismo é conhecido. A preocupação persistente com contas alimenta ruminação, insônia e ansiedade, e muitas vezes a pessoa adia decisões justamente porque olhar para o problema dói.

Como o sofrimento chega ao trabalho

A preocupação financeira não fica em casa. Ela acompanha o colaborador até a mesa, a linha de produção ou a reunião on-line.

Efeito no trabalho Dado Fonte

Mais estresse no ambiente de trabalho 51% dos trabalhadores SalaryFits/Serasa Experian, 2025

Exaustão física 47% SalaryFits/Serasa Experian, 2025

Queda de produtividade 33% SalaryFits/Serasa Experian, 2025

Perda de mais de 1 hora por semana com estresse financeiro 79% Onze/Icatu, 5ª edição

Acreditam que a preocupação afeta a própria produtividade 45% Onze/Icatu, 5ª edição

Querem educação e planejamento financeiro como benefício 87% SalaryFits/Serasa Experian, 2025

Fontes: pesquisa SalaryFits com 1.029 trabalhadores CLT e PJ, maio–junho de 2025 (VIVA); Raio-X Onze/Icatu (Times Brasil/CNBC).

O quadro também pesa na retenção. Na Employee Financial Wellness Survey da PwC, só 54% dos funcionários com estresse financeiro veem futuro promissor no emprego atual, contra 69% entre os que não têm esse estresse (Meu Bolso em Dia).

O que a NR-1 pede e o que ela não pede

Aqui mora a confusão mais comum do mercado. Para conversar com seriedade sobre saúde financeira e NR-1, é preciso ser preciso sobre os limites da norma.

A NR-1 olha para o trabalho, não para a vida privada. O MTE é explícito: a identificação de riscos psicossociais analisa as condições e a organização do trabalho. Ela não se confunde com avaliação clínica individual nem com rastreamento da saúde mental dos trabalhadores (Perguntas e Respostas MTE, pergunta 6).

Isso significa que a situação financeira pessoal do colaborador não é, por si só, um risco ocupacional a ser inventariado no PGR. E nenhum benefício de bem-estar substitui a AEP, a AET, o inventário de riscos ou o plano de ação.

Outros esclarecimentos do MTE que valem para qualquer conversa sobre o tema:

  • Questionário sozinho não basta. A aplicação isolada de questionários padronizados não comprova a gestão dos riscos psicossociais; os resultados precisam ser analisados e incorporados à AEP e ao inventário.

  • Não há ferramenta oficial obrigatória. Cada organização escolhe metodologias tecnicamente fundamentadas para a sua realidade.

  • Não há profissional exclusivo. A empresa designa responsável ou equipe com conhecimento técnico compatível, podendo ser multiprofissional.

  • Vale para todos os regimes. A avaliação abrange trabalho presencial, remoto, híbrido e teletrabalho.

  • A participação dos trabalhadores deve ser efetiva. Consultas, escutas e registros contínuos pesam mais que documentos isolados.

Então onde entra a saúde financeira?

Ela entra como medida complementar de promoção de bem-estar, ao lado das ações de prevenção que atacam as causas organizacionais. As diretrizes da OMS sobre saúde mental no trabalho seguem essa lógica: enfrentar primeiro os riscos da organização do trabalho e, junto, apoiar as pessoas.

Um colaborador menos sobrecarregado por dívidas tem mais energia para lidar com as demandas do trabalho. E uma empresa que oferece apoio concreto reforça a percepção de suporte; a falta de suporte no trabalho, aliás, aparece entre os fatores de risco listados no guia do MTE. O benefício não cumpre a norma pela empresa; ele amplia o cuidado que a norma inaugura.

Como cada profissional pode levar o tema adiante

A saúde financeira só funciona como pilar de bem-estar quando é tratada com o mesmo cuidado ético que a saúde mental. Algumas práticas ajudam cada público a fazer isso bem.

Para o RH e a liderança

  • Separe as frentes. Mantenha a gestão dos riscos psicossociais (AEP, inventário, plano de ação) com o responsável técnico e trate benefícios de bem-estar como camada complementar, documentada como tal.

  • Ouça antes de escolher. Pesquisas internas e canais de escuta mostram se dinheiro é tema relevante para o seu público, e a própria escuta já conta como participação dos trabalhadores.

  • Garanta privacidade por desenho. Exija de qualquer fornecedor que a empresa receba apenas dados agregados e anônimos, nunca saldos, dívidas ou conversas individuais, em linha com a LGPD.

  • Meça adesão, não só contratação. Um benefício que ninguém usa não cuida de ninguém; acompanhe taxa de uso recorrente e temas mais buscados.

Para médicos do trabalho

  • Inclua a pergunta no consultório. Em queixas de insônia, ansiedade ou fadiga, perguntar sobre preocupações financeiras ajuda a entender o quadro, sempre respeitando o sigilo.

  • Tenha para onde encaminhar. Saber que a empresa oferece apoio financeiro estruturado permite indicar um caminho prático, além do tratamento clínico.

  • Não confunda os papéis. O exame periódico não substitui a avaliação de riscos da NR-1, como lembra o MTE.

Para psicólogos

  • Reconheça a ansiedade financeira como tema clínico legítimo. Vergonha e evitação são comuns, e a pessoa muitas vezes só procura ajuda quando a situação já está crítica.

  • Combine o emocional com o prático. Ferramentas que trazem clareza sobre o orçamento e próximos passos reduzem a sensação de descontrole e complementam o trabalho terapêutico.

Para corretoras e consultorias de benefícios

  • Posicione com responsabilidade. Vender bem-estar financeiro como "solução de compliance da NR-1" expõe o cliente a risco; o argumento sólido é complementaridade, evidência e cuidado.

  • Proponha pilotos com critério de decisão. Começar por um grupo e decidir a expansão com dados reais reduz o risco para quem compra.

Onde a Lumiius entra: o pilar financeiro do bem-estar

A maioria das empresas já cuida do corpo, com plano de saúde, e do movimento, com benefícios de atividade física. O pilar financeiro costuma ficar de fora, ou se resume a uma palestra anual que ninguém lembra no mês seguinte. A Lumiius foi criada para ocupar esse espaço com apoio prático, contínuo e personalizado.

Para o colaborador: ajuda prática, todo mês

A plataforma usa inteligência artificial para transformar a vida financeira de cada pessoa em uma rotina de cuidado:

  1. Conecta: dados via Open Finance, apenas quando a pessoa escolhe conectar.

  2. Entende: diagnóstico em linguagem humana, sem planilhas.

  3. Prioriza: plano de ação que destaca o que cabe no mês.

  4. Conversa: a Lumi, assistente da plataforma, tira dúvidas e simula escolhas no momento da decisão.

  5. Retorna: uma nova leitura do mês sempre que necessário.

É justamente o que as pesquisas apontam como lacuna. Se 73% das pessoas com problemas financeiros não buscam ajuda, o apoio precisa estar à mão, sem julgamento e no ritmo de cada um.

Para a empresa: cuidado sem exposição

Confiança é condição para adesão. Por isso, a regra da Lumiius é simples: dados pessoais ficam com a pessoa; a empresa acompanha tendências coletivas.

O RH recebe O RH não acessa

Taxa de adesão e de uso recorrente Saldos, extratos ou dívidas do colaborador

Temas mais buscados, em dados agregados Conversas com a Lumi ou plano individual

Evolução do indicador de saúde financeira do grupo Diagnóstico financeiro de uma pessoa específica

Relatório anônimo para apoiar decisões e comunicação Qualquer dado sem consentimento explícito

Posicionamento responsável

A Lumiius complementa as ações de prevenção da empresa. Ela não substitui AEP, AET, PGR, inventário de riscos ou responsável técnico, e a aplicação da NR-1 continua sendo conduzida pela organização. O que a Lumiius oferece é uma medida concreta de bem-estar, com engajamento mensurável e indicadores agregados que ajudam a empresa a acompanhar o cuidado com as pessoas.

Começar pequeno, decidir com dados

A entrada recomendada é um piloto de 90 dias com 50 a 100 pessoas. A equipe Lumiius conduz a ativação, o webinar de lançamento, os materiais de comunicação interna, a trilha mensal e o suporte via WhatsApp. No dia 90, a empresa recebe um relatório agregado de adesão e uso para decidir a expansão com evidência, não com intuição.

Conclusão: a norma abre a porta, o cuidado faz a diferença

A atualização da NR-1 colocou a saúde mental no centro da gestão de riscos e encerrou a ideia de que bem-estar é assunto opcional. A obrigação da empresa é olhar para a organização do trabalho, com método, participação e registro.

Mas os dados mostram que a carga mental do colaborador também vem de fora do escritório, e o dinheiro é a maior delas. Empresas que somam à prevenção um apoio financeiro prático, contínuo e respeitoso com a privacidade oferecem um cuidado mais completo e mais defensável diante da liderança.

Quer levar saúde financeira para a experiência de bem-estar da sua empresa ou dos seus clientes? Fale com a equipe Lumiius em elisa.manzato@lumiius.com ou acesse lumiius.com e conheça o piloto de 90 dias.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui orientação jurídica ou técnica de segurança e saúde no trabalho. A aplicação da NR-1 deve ser conduzida pela organização e por seu responsável técnico.

Lumiius, finalmente você entendendo seu dinheiro.